Antes de haver smoking, Martini batido (não mexido) e aquela frieza calculista de quem já viu tudo, há um jovem impulsivo, arrogante e cheio de convicções erradas sobre o que significa ser um espião. É aí que 007: First Light nos deixa: nos primeiros passos de James Bond antes de ele ser 007.
A IO Interactive, estúdio de Hitman, assumiu a tarefa de contar esta origem. E a primeira pergunta que qualquer fã de Bond faz é inevitável: será que isto é só o Agente 47 vestido de fato? Passámos a campanha toda a tentar responder a essa pergunta, e o que encontrámos ao longo do caminho merece ser contado com calma.
Bond antes de ser Bond
A história arranca com um jovem aviador da Marinha que, depois de um acto heróico, ganha lugar no programa Double 0 reformulado da MI6. A partir daqui, tudo o que se segue tem a assinatura clássica de Bond: política suja, tecnologia perigosa, segredos que ninguém devia guardar e um protagonista que confia em toda a gente até perceber que não devia confiar em ninguém.
O jovem Bond é exactamente o que devia ser nesta fase da vida: confiante ao ponto de ser irritante, rebelde por natureza, mulherengo desde o primeiro minuto e brincalhão mesmo quando a situação pede seriedade. Há um charme genuíno nesta arrogância, e a narrativa vai suavizando-a aos poucos, mostrando um lado idealista e apaixonado por baixo da postura de galã. As piadas de humor britânico seco ajudam bastante a perdoar os momentos em que ele se acha demasiado bom para as regras.
A trama tem os habituais plot twists de uma boa história de espionagem e o ritmo aguenta-se bem, mesmo quando o antagonista principal fica aquém do que seria desejável. Não é um vilão memorável, mas isso não compromete a experiência geral porque a força do jogo está noutro lado: nos personagens à volta de Bond e na acção.

O elenco que dá corpo ao mito
M, Q, Moneypenny. Estão todos lá, e estão bem entregues. A seriedade de M, sempre a pensar no bem maior mesmo quando isso significa duvidar de Bond. Os diálogos com Moneypenny cheios de segunda intenção. As invenções absurdas de Q, com destaque especial para o relógio, que praticamente carrega uma oficina inteira de gadgets lá dentro.
John Greenway (Lennie James, The Walking Dead), o mentor de Bond neste programa, é um dos grandes destaques da campanha. Cínico, frio, sempre pronto a soltar um comentário mordaz, e com uma química fantástica ao lado do protagonista. Aliás, todo o elenco secundário está a um nível surpreendentemente alto, o que ajuda imenso a compensar a fraqueza do lado dos vilões.
E as Bond Girls, claro, estão lá também, com o romance habitual, sempre sedutor, sempre com aquele sorriso de quem sabe exactamente o que está a fazer.

Um mundo à altura do glamour Bond
Se há uma coisa que 007: First Light acerta em cheio é a variedade e o equilíbrio dos cenários. O jogo passeia-nos por galas de alta sociedade, resorts turísticos de luxo, montanhas geladas, laboratórios secretos escondidos dos olhos do mundo e florestas densas, sem nunca perder a coerência visual que faz Bond ser Bond. É esse contraste entre o glamour e o perigo que dá corpo ao universo do agente: um copo de champanhe numa sala cheia de gente bem-vestida, e minutos depois um corredor escuro cheio de tecnologia duvidosa e planos diabólicos.
Cada ambiente tem identidade própria e serve um propósito narrativo claro, nunca parece cenário por cenário. Os resorts de luxo respiram aquele estilo aspiracional que sempre definiu a saga, com iluminação quente e ambientes cheios de detalhe. Os laboratórios e bases secretas vão para o lado oposto, frios, metálicos, ameaçadores, com aquela estética clássica de covil de vilão de Bond que só quem cresceu com os filmes sabe reconhecer de imediato. E as montanhas e florestas trazem escala e amplitude, dando aos momentos de acção mais espaço para respirar.

O resultado é uma sensação constante de estarmos a viajar pelo mundo ao lado de Bond, nunca presos ao mesmo tipo de ambiente durante demasiado tempo. É um dos maiores trunfos visuais do jogo e ajuda imenso a vender a fantasia de vida de espião, mesmo nos momentos em que a parte técnica falha um pouco.
Escolhe a tua abordagem
Aqui é onde 007: First Light mostra que não é apenas Hitman com outro nome. Cada nível é enorme e cheio de possibilidades, mas em vez das sandboxes totalmente abertas a que a IO nos habituou, o estúdio optou por uma experiência mais linear, pensada para servir a narrativa. Os objectivos vão mudando e evoluindo dentro da própria missão, em vez de sabermos logo à partida quem é o alvo e como o abater.
O jogador decide como quer atacar cada situação. Furtividade total, entrar a matar, usar os gadgets de Q para criar distracções, ou simplesmente confiar no disfarce certo. Ouvir as conversas dos NPCs dá pistas valiosas sobre caminhos alternativos, e os cenários estão cheios de oportunidades escondidas para quem gosta de explorar antes de agir.
Há ainda um truque que o Agente 47 nunca teve: o bluff. Bond pode simplesmente encarar um guarda e inventar uma desculpa credível para passar despercebido, sem gastar um único gadget. Não é possível abusar do recurso porque ele esgota, mas é uma adição que encaixa perfeitamente na personalidade do protagonista e que torna a jogabilidade ainda mais versátil.
Punhos, tiros e adrenalina
O combate corpo a corpo é, sem exagero, um dos pontos altos do jogo. Inspirado claramente no sistema de combate dos jogos do Batman Arkham, com deflexões, contra-ataques e combos fluidos, faz-nos querer partir para o soco a toda a hora. O impacto sente-se nos cenários: monitores amolgados, mesas partidas, corpos a voar como bonecos de trapos. É viciante e nunca cansa ao longo da campanha.
As armas de fogo só entram em jogo depois de Bond receber “licença para matar”, e mesmo aí não são a solução óbvia para tudo. Munição é escassa, no máximo um carregador extra mesmo para a pistola de serviço, o que obriga a pensar taxicamente: usar o terreno a favor, alvejar barris explosivos, recorrer aos gadgets de Q para criar caos, e voltar ao corpo a corpo quando a situação aperta. É um equilíbrio bem conseguido entre as quatro categorias de armas (pistola, metralhadora, caçadeira e sniper), cada uma com identidade própria.
Nem tudo é perfeito neste sistema. Por vezes, no meio de tiroteios intensos, Bond fica praticamente imune a balas durante as animações de ataque corpo a corpo, o que quebra um pouco a imersão. E o facto de não se poder correr agachado também causou algumas mortes precoces evitáveis, sobretudo no início da aventura.
Ação ao volante e momentos Uncharted
Fora dos tiroteios e da infiltração, 007: First Light também nos leva para perseguições de carro em alta velocidade e sequências de acção desenfreada que bebem claramente de Uncharted. É um contraste bem-vindo ao ritmo mais calculado do resto do jogo, e ajuda a vender aquela sensação de estar dentro de um filme de espionagem, com explosões, fugas escaladas ao limite e decisões tomadas em fracções de segundo.

Onde First Light tropeça
Visualmente, o jogo impressiona na maior parte do tempo, mas há inconsistências. Alguns momentos ficam claramente abaixo do que esperamos da geração actual de consolas, e notámos quebras de frame rate em cenas de acção mais carregadas, sobretudo com explosões e tiroteio intenso em simultâneo.
Os vilões, já falámos disso, são o ponto mais fraco da experiência e isso retira algum peso dramático à história principal, que por vezes fica um pouco mundana sem uma ameaça verdadeiramente marcante a pairar sobre Bond.
Simulações táticas e o pós-campanha
Terminada a campanha (que nos levou entre 15 e 17 horas, mais uma hora extra para limpar troféus e chegar aos 100%), há ainda um modo online com desafios que vão sendo adicionados regularmente para testar os agentes mais experientes. Aqui desbloqueamos gadgets, skins para armas, roupas para Bond e muito mais, numa fórmula que recorda directamente as simulações de treino de Hitman, com leaderboards para quem gosta de competir por pontuações altas.
É um bónus inteligente que estica a vida útil do jogo bem para lá dos créditos finais, sem nunca se sentir forçado ou desligado do resto da experiência.

007: Licença para continuar
007: First Light não precisava de reinventar Bond para nos conquistar, precisava apenas de o entender. E entende. A IO Interactive pegou no que sabe fazer melhor (level design inteligente, múltiplas abordagens, cenários que respondem à criatividade do jogador) e injectou-lhe a alma cinematográfica que só Bond tem: o charme, a arrogância, o humor seco, os gadgets absurdos e aquela sensação de estar sempre um passo à frente do desastre.
Não é uma experiência perfeita. Os vilões ficam a dever, há quebras técnicas pontuais e alguns atritos no sistema de movimento. Mas nada disto ofusca aquilo que realmente importa: sentimos, do início ao fim, que estávamos a viver a fantasia de ser um agente secreto britânico em formação, com todos os altos e baixos que isso implica. Para quem cresceu a ver os filmes, é impossível não sorrir ao ouvir os primeiros acordes daquele tema icónico enquanto os créditos sobem.
O nome é Bond. James Bond. E desta vez, ele nasceu num videojogo à altura do legado. 007 promete continuar e nós mal podemos esperar, ficámos agarrados ao comando desde o primeiro minuto e se estavam indecisos, não esperem mais e entrem nesta fantástica aventura.



