God of War: Sons of Sparta é uma carta de amor às raízes mais sombrias da saga. Ao regressar ao passado de Kratos e ao colocá-lo lado a lado com o seu irmão Deimos, o jogo tenta explorar uma fase menos conhecida da sua vida — anterior à transformação no Ghost of Sparta que todos conhecemos. O resultado é uma experiência ambiciosa, emocionalmente carregada, mas nem sempre equilibrada.
Um passado contado entre pai e filha
A estrutura narrativa é um dos elementos mais interessantes do jogo. Jogamos como Kratos, acompanhado pelo seu irmão Deimos, enquanto o próprio Kratos narra os acontecimentos à sua filha Calliope. Esta abordagem cria uma camada adicional de intimidade, oferecendo uma visão mais humana de uma personagem historicamente associada à fúria e à violência.
Existe curiosidade genuína em descobrir a origem da rivalidade e da ligação entre os dois irmãos. O jogo tenta mostrar um Kratos menos consumido pelo ódio e mais dividido entre o dever espartano e os laços familiares. No entanto, nem sempre a execução acompanha a intenção. Deimos, apesar de ser central na narrativa, apresenta diálogos que por vezes destoam do tom sério da franquia. Em vários momentos surge quase de forma inesperada, com falas que soam deslocadas ou excessivamente teatrais, quebrando um pouco a imersão. É uma pena, sobretudo porque a premissa teria funcionado muito bem num formato cooperativo — algo que infelizmente não foi implementado.
Um mundo grande, mas cuidadosamente guiado
O mapa de Sons of Sparta é vasto, mas não é completamente aberto. O jogo adota uma estrutura semi-aberta, onde novas áreas vão sendo desbloqueadas à medida que adquirimos itens específicos. Esta progressão ao estilo “Metroidvania” funciona bem, incentivando a exploração e o regresso a zonas anteriormente inacessíveis.
Não existe fast travel entre acampamentos, o que obriga a algum backtracking. No entanto, é possível desbloquear atalhos inteligentes entre regiões, tornando o mundo mais interligado e coerente. Existe também fast travel entre grandes regiões, o que ajuda a reduzir frustração, mas ainda assim sentimos o peso da viagem — algo que parece intencional.
O mapa é claro e funcional, permitindo adicionar marcadores personalizados para regressar mais tarde a zonas de interesse. É uma ferramenta simples, mas essencial num jogo que aposta tanto na exploração progressiva.
Combate mais tático e exigente
O combate é um dos pilares da experiência, e aqui o jogo introduz algumas ideias interessantes. Diferentes tipos de armaduras exigem abordagens específicas. Não basta atacar desenfreadamente: é preciso escolher a arma certa, adaptar a estratégia e ler os padrões do inimigo.
Alguns adversários exigem armas mais específicas, como o uso de uma fisga para atingir pontos fracos à distância. Esta variedade obriga o jogador a alternar constantemente entre equipamentos, tornando o combate mais dinâmico e estratégico.
A progressão de Kratos é evoluída de forma semelhante aos jogos anteriores, através dos orbs vermelhos que adquirimos, podemos investir em upgrades para Kratos e para o seu arsenal de modo a ficar o melhor preparado possível para o que aí vem.
Os inimigos clássicos da franquia estão presentes — Medusas, Minotauros e outras criaturas mitológicas regressam com novas animações e padrões de ataque. É um misto de nostalgia com modernização mecânica.
Ainda assim, o combate não é revolucionário. É sólido, exigente e competente, mas não redefine o que já vimos na série.
Mini-jogos e momentos de pausa
Uma das adições mais curiosas são os mini-jogos. A caça, por exemplo, exige paciência: ficamos imóveis à espera da presa antes de atacar no momento certo. São pequenos momentos que quebram o ritmo intenso da narrativa e ajudam a criar contraste.
Estas atividades secundárias não são profundas, mas funcionam como válvula de escape entre sequências mais pesadas. Servem também para reforçar o ambiente espartano e a sobrevivência em território hostil.
DualSense e imersão sonora
O uso do DualSense merece destaque. O jogo aproveita bem o feedback háptico e o altifalante do comando para criar momentos únicos. Há uma sequência particularmente interessante em que é necessário soprar para o comando para remover o pó de uma estátua — um detalhe simples, mas que mostra intenção em explorar as capacidades da PS5. Para além disto, Deimos, de alguma forma, vai falando connosco através do DualSense, como se fosse um intercomunicador.
A sonoplastia é outro ponto forte. A banda sonora de Bear McCreary mantém o nível épico que associamos à saga, com temas que misturam intensidade orquestral e melancolia. O som ambiente é igualmente bem trabalhado, contribuindo para uma atmosfera envolvente e pesada.
Visualmente competente, mas longe de deslumbrar
Visualmente, God of War: Sons of Sparta é competente, mas está longe de ser um marco técnico dentro do género e especialmente quando carrega um nome tão pesado às suas costas. Os cenários são amplos, as paisagens espartanas, templos antigos e zonas rochosas transmitem a brutalidade e a austeridade que se espera deste período da vida de Kratos, no entanto, há uma sensação constante de que a imagem é algo “lavada”. Falta-lhe contraste, profundidade e aquele brilho técnico que vemos noutros grandes títulos de ação na atual geração. As cores parecem pouco vibrantes, a iluminação nem sempre cria impacto dramático e as texturas com o estilo pixel art tornam-no num jogo bastante genérico.
Em termos de performance, o jogo mantém estabilidade na maioria das situações, mesmo durante combates intensos, com apenas ligeiras quebras de frames quando lançamos muito caos em ataques de magia.
Técnica sólida… mas com um problema grave
Visualmente, o jogo apresenta cenários amplos e detalhados, com boas texturas e iluminação competente. O desempenho é estável na maioria das situações, mantendo fluidez mesmo em combates mais caóticos.
No entanto, há um problema que não pode ser ignorado: o bug relacionado com o savegame. Durante a nossa experiência, perdemos cerca de oito horas de progresso devido a um erro no ficheiro de gravação. E não fomos os únicos. Vários jogadores reportaram o mesmo problema.
Num lançamento atual, este tipo de falha é difícil de aceitar. Mais do que um simples bug, é algo que pode quebrar completamente a motivação do jogador para continuar a aventura e é um bug que surge depois de um patch sair para o jogo.
Uma oportunidade parcialmente concretizada
God of War: Sons of Sparta é uma experiência competente, com boas ideias e momentos fortes mas o nome God of War é pesado e exigente, esperamos sempre o melhor desta franquia e sentimos que este jogo teria sofrido menos pressão se tivesse outro nome.
A exploração funciona, o combate é exigente e a narrativa tem potencial emocional, mas fica curta especialmente com o desempenho dos personagens que nos acompanham. Deimos não atinge o impacto que deveria ter, o jogo perde oportunidade de explorar cooperação, e o bug de progresso com o savegame mancha significativamente a experiência.
Ainda assim, é um capítulo interessante para quem quer conhecer mais sobre o passado de Kratos. Não é o ponto mais alto da franquia, mas também não é um fracasso. É um jogo que tenta aprofundar o lado humano de uma das personagens mais icónicas dos videojogos — e que, com um patch que corrija o bug de progresso, pode rapidamente subir a sua nota final.


